De um lado, tínhamos uma estrada de asfalto, banhada pelo sol e que nos levaria com segurança até Itacaré. Do outro, víamos somente névoa e escuridão, mas com a promessa de andarmos metade da distância da outra estrada.
Como bons tomadores de decisão, escolhemos, como um computador, a estrada de menor quilometragem. É melhor ficar pouco tempo numa estrada ruim do que muito tempo numa estrada boa, achávamos.
Logo nos primeiros minutos de viagem, nos encontramos dentro de um acampamento do movimento sem terra, com uma bifurcação que parecia levar igualmente para dois matadouros de turistas. Aparentemente nenhuma alma viva, porém avançando um pouco mais, vimos um senhor na beira da estrada e logo percebemos que teríamos companhia.
Ao passar do lado dele, pensamos simultaneamente "Esse cara vai pular na frente do carro e roubar tudo que temos. Não dá para culpá-lo, ele deve estar com fome e puto com o governo!" e aceleramos o mais rápido possível para, na melhor das hipóteses, atropelarmos ele e ir embora.
Pensando em retrospecto, ele deve ter ficado com mais medo da gente do que a gente dele, pensando "Vixi maria, carro do Rio, só pode ser político que veio tentar fazer campanha com a gente. Melhor eu me esconder!"
Passado esse primeiro susto, tínhamos certeza de que estávamos dirigindo em direção à morte certa. O cenário otimista era que eu seria assassinado para não assistir vivo ao estupro da minha namorada.
Chegando em uma das poças, que estavam a cada quilómetro ficando maiores e mais escorregadias, vimos no final de uma subida três homens com espadas medievais na mão! Juro por Deus!
Ok, na verdade eles eram uma família, um pai com dois filhos. Mas todos estavam com as famosas peixeiras (facas do tamanho de espadas medievais) nas mãos e a única interpretação viável era "Agora não tem jeito! Vamos ter que passar devagar por causa dos bois e eles vão abrir essa lata de sardinha a machadadas e nos matar só para alimentar os bois, que estão bem magrinhos."
Claro, que com a cabeça mais fria, achamos que eles mesmos poderiam ter falado o mesmo da gente. Imaginei o pai falando como numa entrevista "Eu vi aquele carrão do Rio chegando e pensei que eles iam raptar meus filhos, sabe como o mundo está violento, né? Mesmo sabendo que nossos facões são inúteis para as armas que eles estavam carregando, eu tinha que fazer algo para proteger minhas crianças."
Enfim, bla bla bla pai-de-família. Seguimos bravamente a nossa jornada, agora mais certos do que nunca de que o carro ia parar em alguma poça e ficaríamos à mercê dos moradores locais, todos violentos E ESTUPRADORES na certa.
A estrada era convenientemente para a guerrilha que morava na região feita de morros. Ou seja, você não via mais que 500 metros na frente e, em toda descida, tinha uma deliciosa poça esperando para te engolir!
Depois de quase dar um 360 numa poça, avistamos uma criança em cima de uma colina. Sozinha. No meio do inferno. Sozinha. Como cariocas espertos, sacamos tudo em um segundo "Claramente, essa criança é uma versão baiana dos aviõezinhos das favelas carioca, ela vai dar o sinal para a emboscada logo a frente. Precisamos nos ligar." Ninguém ia pegar a gente desprevenidos.
E, o pior, estávamos certos. Na próxima descida, enfrentamos o momento mais tenso da viagem. Desta vez, o perigo era mais claro do que nunca. Vimos três homens jovens e fortes fingindo estar dormindo na varanda de uma casa, logo após o aviãozinho. Sabíamos que o bote ia acontecer a qualquer momento e pensamos "Viemos até aqui para nos entregar de bandeja para eles. Olha só como eles estão nos olhando com o rabo do olho."
A sorte conspirou ao nosso favor. Eles ERAM bandidos, mas ao ver aquele carro surrealmente sujo com duas pessoas e a placa do Rio de Janeiro pensaram duas vezes "Casal rico do Rio de Janeiro nessa estrada. Na certa, mataram alguém e vieram se esconder da polícia. Melhor fingirmos que estamos dormindo mesmo para não ser testemunha de nada."
Rá! Por essa nem a gente esperava. Nos quilômetros finais, vimos uma velhinha subindo o morro e pensamos "Está aqui uma chance de colocar um deles do nosso lado!" Paramos e oferecemos uma carona para a velhinha. Ela calmamente falou "Sai do carro e me estupra."